quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Cabeças cheias de açorda



O meu falecido sogro, pessoa incompreendida socialmente, mas dotada de uma sagacidade notável relativamente a tudo o que se passava à sua volta, contava uma história que eu fixei logo à primeira, e que mostra bem o que é o egoismo e o egocentrismo das pessoas.

Rezava, então, assim:

Numa ceia de Natal, em casa de uma família com, efectivamente, parcos recursos, tão parcos que a refeição era constítuída por um prato de açorda de alhos e coentros, com um fio de axeite, mas sem ovo, o patriarca, perante a tristeza dos filhos, e da sua companheira, começou dizendo:

"Estou desconfiado que o próximo ano vai ser bom, tão bom que vou engordar um cabrito para assar para a consoada, juntamente com batatas. Moços: como eu gosto de cabrito assado no forno de lenha, com batatas e um bom molhinho...Humm, só de pensar, até me cresce a água na boca!.
Após se ter calado o pai, a família ficou em silêncio, saboreando a açorda possível daquele Natal, silêncio que só foi quebrado pelos mumúrios e sovinadas que os moços trocavam entre si, até que o mais pequeno se dirige ao progenitor, queixando-se "oh! Meu pai! Olhe lá o meu mano, que ele não me deixa molhar no molho do cabrito."

A gula, a ânsia, e o desejo de tudo querer e poder para si, cerceando aos outros aquilo que entendem ser apenas de seu direito, é o "pão nosso de cada dia". O pior é que este nem serve para fazer açorda de alhos e coentros, com ou sem ovos...

Digo eu ... 

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