domingo, 5 de outubro de 2008

Sistema político e Partidário

Hoje faz anos a República, veneranda senhora de 98 anos, e que derrubou, ou antes, "abanou" a árvore donde pendia, apodrecido de maduro, o regime monárquico.

Passou por vicissitudes várias.

Os partidos da Primeira República, que emergiram da queda do anterior regime, dado que a sua inexistência era por demais óbvia, e aproveitando a luta árdua dos anarco-sindicalistas, depressa demonstraram o seu carácter repressivo sobre as classes trabalhadoras, muitas vezes com uma violência que atirava João Franco para o painel dos políticos mais brandos nesta matéria.

São nestes partidos republicanos que os Partido Socialista encontra as suas avoengas raízes, e que o actual Primeiro Ministro faz questão de honrar, pelo menos em matéria de retirada de direitos àqueles que nada mais possuem que a sua força de trabalho.

A esta Primeira República, sucede-se o período de quarenta e oito anos de uma ditadura retrógrada e rústica, que, à parte do seu carácter repressivo das suas instituições particulares e peculiares, atirou com este povo para o limbo da mediocridade no qual, ainda hoje, permanece embevecido com as suas pequeninas vitórias, como seja, ser possuidor do maior pepino do mundo, ou ter alcançado um meritório segundo lugar no Euro 2004.

Estes são exemplos de mediocridade, porque se entrarmos nos exemplos das tristezas nacionais, teremos que falar do ministro Pinho, e, aí, desatamos todos a chorar.

Isto tudo para quê?
Como já foi referido o Primeiro-Ministro do Partido Socialista, José Sócrates, faz jus às raízes que o seu partido invoca, e destrói desavergonhadamente o edifício que, ainda antes do 25 de Abril, a muito custo, com muitas lutas e repressão, se foi construindo em matéria de direitos laborais.

Como se tal não fosse suficiente, entretém-se, também, a destruir o sistema partidário, de raiz constitucional, que laboriosamente, e, diga-se em seu abono, os deputados da Constituinte, sabiamente construíram.

Sócrates conseguiu atirar a preponderância da actividade política-partidária para o caixote de lixo, com a mesma veleidade com destruiu o Serviço Nacional de Saúde ou a suplesse com que entrega um Magalhães (essa obra prima da tecnologia informática nacional, refugo das experiências efectuadas na Índia, mas que, graças, à excelente qualidade da nossa indústria de plásticos, parece que aguenta uma bomba), em Vilar de Maçada.

O seu próprio partido, o Partido Socialista, é um não-partido. É mais um clube restrito a quem o Primeiro Ministro, na falta de mais um coelho para tirar da cartola (do género, mais-600-metros-de-linha-de-metropolitano-por-500-milhões-de-euros-que-irão-reduzir-em-33-segundos-o-tempo-que-os-habitantes-de-Alfornelos-levarão-para-chegar-a-Lisboa, ufa!), reúne para se fazer ouvir num luxuriante discurso, de elevada componente tecnológica, que abrirá os noticiários da TV.

Hoje, a segunda muleta do sistema do rotativismo partidário burguês, está quebrada. O PSD está encostado às cordas de um ringue em que lutam dois pugilistas do mesmo clube. E tem levado tanta porrada, que caiu num silêncio sepulcral. E faz sentido. Faz sentido porque a actual líder do PSD, não tem argumentos políticos, ou sequer ideológicos, para rebater quem faz melhor a política que ela própria defende.

Poderia quase dizer, e não o faço para não me acusarem de veleidade verbal, que Manuela Ferreira Leite é a fã n.º 1 do Primeiro-Ministro. Só mesmo Sócrates consegue gostar mais do actual Primeiro-Ministro que Manuela Ferreira Leite.

Mais para a direita, o CDS, partido que funcionava como fiel, ou antes, aquele dedinho maroto com que a tal mão invisível das teorias capitalistas, empurrava inexoravelmente para a direita, os governos, evitando quaisquer veleidades de um Governo de Centro-Esquerda, não passa hoje de uma associação que reúne os clones do seu líder.

Faz lembrar aquelas associações norte-americanas de adoração a Elvis Presley, que aguardam eternamente o seu regresso. No CDS-PP aguarda-se desesperadamente que o líder clone, ou clone líder, atinja o cada vez mais longínquo lugar de Primeiro-Ministro.

Cruzes-canhoto que até se me arrepia a espinha toda só de pensar ... brrr! Afinal estamos perante o "partido da Lei e da Ordem".

Entretanto, e numa perspectiva de erosão do eleitorado social-democrata, tem acesso ao prime time dos noticiários televisivos.

À esquerda do PS, subsistem o PCP, com um historial inegável de luta pelos ideais que defende, e o Bloco de Esquerda, que congregou os desiludidos do PCP, os desiludidos da média burguesia intelectual, para além de pessoas que que, por opções legitimas, não se revêm no grosso da sociedade.

Estes dois partidos têm atenção diferenciada por parte do Governo, no que toca ao tratamento que recebem por parte do poder, designadamente por parte do Ministro da Informação e Propaganda, Santos Silva, que, vindo da extrema-esquerda, corre desalmadamente para o extremo oposto, candidatando-se, quiçá, a cartão de sócio no partido dos clones.

O PCP dificilmente consegue chegar a ser notícia, apesar de ser dos partidos com agenda política mais carregada (porque os há com agenda social com direito a tempo de antena), sendo o eterno ausente dos noticiários nacionais.

Já o Bloco de Esquerda, e na perspectiva de conseguir permitir ratar algum do eleitorado natural do PCP, tem acesso, particularmente o seu líder, às head lines dos noticiários nacionais.

No meio disto tudo os sindicatos, que conseguem mobilizar centenas de milhares de pessoas em jornadas de protesto contra as políticas do Governo, são menosprezados, ignorados e gozados despudoradamente pelo Primeiro-Ministro, em sucessivas demonstrações de arrogância soez com que nos brinda quotidianamente.

Estamos pois, num sistema que assenta na actividade político-partidária, com a particularidade de essa actividade não ser oficialmente reconhecida pelo poder, legitimado que foi pelo voto nos partidos políticos.

200 anos depois, aparece um mediocrezeco qualquer que afirma, a plenos pulmões, e para quem quiser ouvir que l´etat c´est moi (sem ser em francês, obviamente, algo que está muito para além das suas capacidades), e todos nós, seus ouvintes involuntários, ou não, assistimos, vemos, compreendemos e sentimos, e continuamos alegremente sem nada fazer.

Ah, como às vezes compreendo aquela malta da Índia e do Paquistão ...

Entretanto, e à falta de melhor alternativa, lá vamos, timidamente sussurrando, um Viva a República! que nos acalma a alma.

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