quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Os Passos Perdidos da Esquerda


Devido ao conteúdo, à importância e a actualidade do tema, transcrevo aqui, na íntegra, e com a devida vénia, este texto de Lopes Guerreiro, disponível no seu blogue Alvitrando, in http://alvitrando.blogs.sapo.pt/.


A imagem foi escolhida e introduzida por mim.


Os passos perdidos da esquerda

Os últimos tempos têm sido férteis nas mais diversas declarações proferidas pelas mais diversas personalidades sobre a crise causada pela economia de casino.
É interessante verificar que poucos, ainda, se atrevem a pôr em causa o sistema capitalista e que, quase todos, insistem na sua defesa, limitando-se a apontar eventuais causas para esta nova crise.
É interessante, ainda, verificar que entre os defensores do capitalismo aparecem muitos que se diziam (alguns ainda dizem, de vez em quando) de esquerda e socialistas.
Os que inventaram o socialismo democrático, como Mário Soares, e que se têm fartado de falar em democracia, nada ou muito pouco fizeram para que esta integrasse também no seu conteúdo as componentes económica e social.
Esqueceram-se do patriotismo quando, em 1975, pediram a intervenção dos Estados Unidos da América e conspiraram com a CIA contra a Revolução de Abril.
Hoje, mostram-se indignados com o neo-liberalismo, responsabilizando-o pela crise que o capitalismo está a atravessar, preocupados com o futuro deste mas conformando-se com a sua inevitabilidade.
Os que lhes sucederam, assumiram a terceira via não como a procura de um sistema alternativo e mais justo mas como a melhor defesa do sistema capitalista.
A seguir vieram os defensores da esquerda moderna, como José Sócrates, a quem queima a boca a palavra socialismo e que acha que a esquerda se esgota na defesa das chamadas questões fracturantes.
Vemos assim que desde que Mário Soares meteu o socialismo na gaveta nem ele nem muito menos os que se lhe seguiram de lá o tiraram. Nem mesmo agora. E não é por acaso que mantêm o socialismo engavetado e se esforçam por falar o menos possível dele, é porque o não querem.
Foram inventando os vários eufemismos – socialismo democrático, terceira via, esquerda moderna –, para alimentar, nos que lutam a sério pelo socialismo, a ilusão de que aqueles eram os melhores caminhos ou vias para o construir.
Os que dizem defender o socialismo a sério ou real pouco mais têm feito do que assumir-se como contra-poder, tentando fazer passar a ideia de que basta ocupar o poder para tudo resolver, como se o tempo não tivesse já mostrado que não é bem assim.
Mas nem mesmo nessa perspectiva conseguiram construir uma política de alianças que permitisse alcançar o poder. Têm sido mais eficientes em acentuar clivagens e evidenciar divisões.
Combater nos terrenos e com as armas dos adversários costuma dar vantagem a estes, aos que estão instalados…
Não será desvalorizando as liberdades individuais e ostracizando os que queiram intervir através da reflexão, do debate de ideias e da procura de respostas novas para velhos problemas que a esquerda se afirmará.
A esquerda tem de pensar mais, tem de agir com mais eficácia, tem de arriscar e não se limitar a continuar a desempenhar os papéis que, no poder ou na oposição, lhes foram sendo distribuídos.
É doloroso ouvir “socialistas” defenderem o sistema capitalista, reclamando apenas, quando muito, um maior controlo do mercado, quando ouvimos o líder dos patrões, o presidente da CIP, dizer que não se importa que o Estado tenha um papel mais interventor na economia, dirigindo mais o investimento e controlando melhor a actividade privada.
Ao que havíamos de chegar! O grande empresariado a reclamar a intervenção do Estado e “socialistas” a defenderem o sistema capitalista como fim da história, quando até o ideólogo desta inevitabilidade histórica já a rejeitou.
Enfim, não é de admirar que os capitalistas e os apologistas do capitalismo se esforcem por desculpabilizar o sistema apontando culpas a alguns exageros e falta de auto-controle, como se este alguma vez pudesse ser eficaz.
O que é inadmissível é a triste figura que fazem líderes “socialistas”, ao serem mais papistas que o papa, ou seja, ao tentar defender o indefensável.
Esta triste realidade não é apenas mais uma das curiosidades portuguesas. É a realidade que caracteriza actualmente o movimento socialista e a esquerda em quase todo o mundo, mostrando-se, como escreveu José Saramago, incapaz de pensar, de agir e de arriscar um passo.
É neste quadro que alguns “ilustres socialistas alentejanos” se continuam a mover, a defender a falida “terceira via” e outros eufemismos do capitalismo, acreditando que essa é a melhor forma de “vender gato por lebre”.
Até quando as pessoas vão deixar-se ludibriar, atendendo ao local e imediato em detrimento do global e futuro? Até quando vão aceitar como dogmas e inevitabilidades históricas o que a vida se encarrega de mostrar rapidamente como insustentável?
Até lá a esquerda vai perdendo tempo e oportunidades e a “exploração do homem pelo homem” vai-se mantendo, num mundo que, embora nalguns casos mais próspero, é cada vez mais injusto e exclusivo.

Lido na Rádio Terra Mãe, em 8 de Outubro de 2008


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