
Como é sabido, o pão é um alimento base do regime básico alimentar básico mediterrânico, e, como tal, esta informação constitui um sinal de que a vida está mesmo pelas horas da amargura.
Diga-se de passagem que esta informação não vai ao encontro da entrevista do Sr Sócrates, na passada 4.ª Feira, em que, no final da mesma, me questionei se aquele senhor eram mesmo o Primeiro Ministro deste país, tal era o cenário cor-de-rosa por ele pintado.
Dessa entrevista tirei suas conclusões:
1º Tudo de mal que os portugueses sentem na pele, é a bem do país; tudo o que ele acha que é positivo, acontece por seu mérito.
2.º O senhor não é arrogante, e considera a opinião dos portugueses que se manifestam nas ruas, mas ainda considera mais as suas próprias opiniões, pelo que ignora a dos outros.
Voltando ao pão.
Alguns jornais aventam, designadamente o DN, outra palavra não se aplica, a hipótese de tal redução no consumo se dever ao aumento do consumo de máquinas domésticas de fazer pão.
Esta faz lembrar aquela célebre estória, que não sei se é verdadeira, segundo a qual, quando o povo francês, nos idos do séc XVIII, se manifestava em Versalhes, Maria Antonieta terá perguntado a razão do descontentamento, ao que alguém lhe respondeu: O povo não tem pão para comer, Alteza.
A Rainha terá retorquido: se não tem pão, porque não como brioche?.
Por cá, aparentemente, alguns jornalistas entendem que deixou de se comprar pão para comprar as máquinas que o fabricam.
Enfim, parece que por cá vivemos num país de faz-de-conta.
Falta saber em qual deles: no do Primeiro Ministro ou no dos Jornalistas.
Escrito em 1896 por Guerra Junqueiro
ResponderEliminar"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."